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Nome: Ana Paula SANTANA
Data Nascimento: 1960-10-20 
Naturalidade: Gabela - Kwanza Sul 
Gênero Literário: Poesia 

 

I

Início
que te torna Pedro:
som
pétreo Cedro indeclinável
ao Tempo
distância
mudo Vento intraduzível
a memória
ausência
remota Glória inconfessável
a Fala
vida
silente Bala indizível
a pele

II

Sangue
que te inviabiliza a Safra
Lavra
incansáveis corpo, alma
insaciável
Sanga
moída magoa ao rumor d´aguas
no domingo
Transmutação
Que se torna quase o Norte:
Terra
indefiníveis goiabas, cambumbu
inconfundível
Encanto
maturação do safu no cacimbo
Silêncio
que te torna Pressentimento:
Incenso
inextricáveis cruzes, terco
imperdoável
Cálice
Projecto vencedor da morte
Na Igreja

(…)

Poema inédito( devido as questões técnicas, os versos não estão na posição original)

Ana Paula Santana nasceu a 20 de Outubro de 1960, na Gabela, Kwanza Sul, apesar de ter sido registada como natural de Luanda: “tenho a idade da guerra. Quando eu nasci (fruto de um casamento inter-étnico), a minha família vivia momentos muito difíceis, por um lado devido aos problemas políticos que levaram o meu pai à cadeia. Por outro lado, com o eclodir da Guerra, parte da minha família que estava no Norte teve que ir viver para o os centros de refugiados em Luanda e outra parte, caso do meu avo paterno, para a vizinha República do Zaire, de onde só regressou após a independência”

Na entrevista que concedeu a D. Rozario para a “Palavra de Poeta – África” (Editora Civilização Brasileira), Ana Santana, poetisa e membro da UEA, ciosa das suas origens ancestrais (a sua avo foi neta de D. Pedro V do Congo) começou por vincar a sua identidade ao dizer que é “Mulher, angolana, africana e negra. Estas são as chaves da minha identidade. Há nelas as componentes ontológicas, históricas e culturais com que acedo ao universo e elas são necessárias quer para se aceder ao código estético que conforma o meu programa poético, quer para se entender a minha postura perante a vida e o mundo”.

Ana Paula Santana fez os estudos primários e secundários em Luanda. Em 1995 fez a Licenciatura em Economia, com especialização em Economia Internacional e Integração Económica Regional, na Universidade Técnica de Lisboa (ISEG), Lisboa, Portugal.

Sobre a sua vida estudantil, a poeta garante que “a segunda metade de 70 foi marcada por todas as revoluções e militâncias. Eu era uma adolescente que levava a vida tão a sério que, aos 15 anos, fui eleita pelas alunas do liceu feminino (hoje Nzinga Mbandi) paras as representar no nosso Conselho Directivo (…) Mas a década de 70 foi também a de todos os desenganos e da desmobilização política de uma boa parte da minha geração. Voltei, porém, ao activismo estudantil na década de noventa, como vice-presidente da União de Estudantes Angolanos em Portugal e como participante na vida activa da comunidade angolana naquele país”.

Em 1998, no Reino Unido, faz o Bacharelato em Economia Empresarial, incorporando módulos de Gestão de Informação e Finanças; Mestre de Ciência em História Económica e Economia, sendo que a sua dissertação teve o seguinte título: Mudança Institucional & Desenvolvimento Económico Regional na África Austral – A experiência da SADCC/SADC, - c.2000, obteve o Prémio de Mérito da London School of Economics & Political Science, Reino Unido e tantas outras formações que enriquecem o seu Curriculum Vitae (o seu e-mail é ).

Ana Paula Santana é consultora e vive actualmente entre Londres e Lisboa, publicou «Sabores Odores & Sonho», poesia, União dos Escritores Angolanos (UEA), 1985.

Manuel Ferreira teceu as seguintes críticas à volta da sua obra: “Há nos enunciados de «Sabores, Odores & Sonhos» de Ana de Santana o exorcismo da recusa ao vazio e deles emerge um certo incitamento a uma voz que soletra a certeza; a palavra como abertura para o amor, repercute o timbre do erotismo. E a sua voz é ainda carregada de inquietação, o espectro da guerra é uma espécie de subjacência num universo em que a massa telúrica, as ressonâncias culturais nacionais irrigam, anunciam o «tempo do sonho, temos aqui uma linguagem pessoal, uma nova maneira de dizer o que já foi dito, e o que o homem sempre terá necessidade de dizer.”, excertos do texto intitulado “Em louvor da moderníssima poesia angolana, in Jornal de Letras, Fevereiro de 1989.

Sobre as suas multivalências a cosmopolita confessa que muitas vezes tem sido “confrontada com a questão de como é possível conciliar a poesia com a economia. A essa questão respondo invariavelmente que os economistas, tal como os poetas, têm em comum o secreto desejo de transformar o mundo e, mesmo que de formas diferentes, tentam-no com igual paixão… mesmo porque, como dizia o economista Perroux, «nem um só dos conceitos fundamentais da economia é valido até ao fim se abalarem os seus fundamentos culturais.» (…) Não creio que o poeta tenha obrigatoriamente que ser engajado politicamente, embora não acredite que ele possa ser imune, ou ficar indiferente, a vida política do mundo que o rodeia. A minha forma de me relacionar com a política obedece a mesma ordem de contingências que motivam a minha poesia. Alguns factos políticos têm conseguido infiltrar, de forma directa em poemas que escrevo. Foi o caso da desintegração do leste europeu, expresso neste poema: uma a uma as meninas/ sorvem de pedra/ seu secreto adágio (…) enquanto sua alma gémea/ branca pedra se expõe ao sol/ com frutos secos ao peito (…) uma a uma, as secretas/ inquietantes meninas/ sonham a posse por seu cisne/(…)”.

A consultora e poeta diz gostar de música, participou na gravação do primeiro disco do Duo Tchissossi, teve “aulas de piano na academia de música de Luanda”.

Quando há pássaros (Onde há pássaros há musica quando há música cresce um solo de piano e a eternidade toda sopra um sax tenor há um piano onde o pássaro não pousa a água nos olhos cega – blue) parte ou voa para a morte” (…) Inédito Exílio – Adágio molto contrariato

Na revista Archote, Agosto de 1986, o poeta e sociólogo E. Bonavena fala da espiritualidade da obra de Santana: “Sabores, Odores & Sonhos, que nos transmite logo, na sua sequência, a ideia de evolução de estádios psicológicos, de conhecimento e reconhecimento, através das linhas enformadoras de um quadro geral que é, neste caso, a mundivivência do autor. E isto não é menos válido quando ele (autor), semelhando um cientista, trabalha com microcosmos para chegar ao macro…Voltando a moeda, com que Judas se abotoou consumando a traição (trair e negar –serve essa referência como nota a intertextualidade de Ana de Santana com o livro sagrado; sedimentação de uma educação religiosa superada, mas assumida), encontramos uma poesia cheia de fantástico, pelo qual nos transporta, como que levitados, a grande intensidade do real”

 

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