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Tábua
VASCONCELOS, Adriano Botelho de 2008 UEA
A invasão da poesia de ABV na palavra percorre uma reflexão sobre o
labor poético, sobre a função da linguagem e sobre a função específica
que esta adquire na especial forma escolhida pelo autor para fazer
comunicar a sua subjectividade. Há poemas ponteados pela metapoesia
e, com maior incidência, pela poética, pela tecitura do verbo no verso,
ou seja, pelo percurso existente entre o sujeito e o resultado conseguido
pelos firmes passos dados. O fulcro da obra assenta, assim, na criação.
O poeta, os lavradores, os heróis e as personagens presentes nos poemas
são criadores, entre o poema e o quase poema que nos é denunciado e
apresentado. A negação é usada, então, como estratégia discursiva e de
criação e liga-se à relação estabelecida entre criador e criatura: "Não se
pode escrever o poema porque entre os seus elementos vigora uma voz/
que indica o lugar / da agonia". É frequente que o criador questione a
sua criatura, colocando-se perante ela e deixando-se por ela inundar, como se o processo criativo se processasse no inverso, como é perceptível
nos versos exemplificados: "E a palavra antes de ela ser estrofe vive /
uma luta com o que nos vem em sangue para apertar / o mundo".
A palavra faz e desfaz, constrói o abandono, desfrutando, pelo seu
som, o silêncio; a voz cede o seu lugar cativo aos outros sentidos físicos
que se compõem em poesia. A recorrente metáfora poética do tecto
surge, neste sentido, como expressão do desejo de toque do inatingível,
do alto, do máximo organizador ao qual se acede precisamente pela
vogal, pelo verbo com poder de nomear e de apropriar na subjetividade
o visível, o perceptível e o imaginável. O espelho é filtrado pela visão
na sedução da imagem com a obsessão pela palavra. As mãos, os dedos,
a boca que sentem o barro, o ouro e a terra, húmus fértil, tal como a
dança que envolve toda a percepção sensorial, comunicam com as outras
artes, as da palavra e as do corpo. "Todos os meus dedos tinham o vício /
das luas nas salivas dos teus desejos. A água / é um imenso espelho com
olhos no teu umbigo / e a felicidade treme na ponta de todos os troncos /
para que a túnica se amarrote / na noite", versos síntese da junção
inevitável de todos os sentidos concretos e imaginados. A poesia de ABV
faz-se pela palavra escrita na voz que ressoa no corpo e em seu apelo. A
apreensão e a inventariação do mundo medem-se pelos sentidos físicos,
que podem ser ou não simultâneos, presentes ou ausentes, como a música
que acompanha a surdez...excerto da pág. 15
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