FERNANDO PESSOA

PESSOA, Fernando

 

O que me doi não é O que há no coração Mas essas coisas lindas Que nunca existirão...

São as formas sem forma Que passam sem que a dor As possa conhecer Ou as sonhar o amor

São como se a tristeza Fosse árvore e, uma a uma, Caíssem suas folhas Entre o vestígio e a bruma.

5.9.1933

Porque é que um sono agita Em vez de repousar O que em minha alma habita E a faz não descansar?

Que externa sonolência, Que absurda confusão, Mas oprime sem violência, Me faz ver sem visão?

Entre o que vivo e a vida, Entre quem estou e sou, Durmo numa descida, Descida em que não vou.

E, num fiel regresso Ao que já era bruma, Sonolento me apresso Para coisa nenhuma.

6.9.1933

A morte chega cedo, Pois breve é toda a vida O instante é o arremedo De uma coisa perdida.

O amor foi começado, O ideal não acabou, E quem tenha alcançado Não sabe o que alcançou.

E a tudo isto a morte Risca por não estar certo No caderno da sorte Que Deus deixe aberto.

11.9.1933

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

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