O que me doi não é O que há no coração Mas essas coisas lindas Que nunca existirão...
São as formas sem forma Que passam sem que a dor As possa conhecer Ou as sonhar o amor
São como se a tristeza Fosse árvore e, uma a uma, Caíssem suas folhas Entre o vestígio e a bruma.
5.9.1933
Porque é que um sono agita Em vez de repousar O que em minha alma habita E a faz não descansar?
Que externa sonolência, Que absurda confusão, Mas oprime sem violência, Me faz ver sem visão?
Entre o que vivo e a vida, Entre quem estou e sou, Durmo numa descida, Descida em que não vou.
E, num fiel regresso Ao que já era bruma, Sonolento me apresso Para coisa nenhuma.
6.9.1933
A morte chega cedo, Pois breve é toda a vida O instante é o arremedo De uma coisa perdida.
O amor foi começado, O ideal não acabou, E quem tenha alcançado Não sabe o que alcançou.
E a tudo isto a morte Risca por não estar certo No caderno da sorte Que Deus deixe aberto.
11.9.1933