Dados Necessários para que se Conheçam os Factos e Diversos Percursos
da Poesia Angolana (1945-2004)

Nota introdutória: Este texto é uma recolha e sistematização de dados apresentados por diversos autores sobre a poesia angolana, não se pretendendo a originalidade ensaística. Portanto, sempre que se apresentar relevante, citarei, ainda que de forma longa, os autores em cujas obras me baseei para esta síntese.

1945/1974

Este é o período do “nascimento de uma nova consciência ligada à terra”, como tão bem identificou Mário Pinto de Andrade, mais dizendo que os poetas procuraram “um equilíbrio de linguagem”, enriqueceram “a língua da dominação”, exprimiram “um novo valor ao canto popular” e veicularam “a sua mensagem com um conteúdo social”.

Para Mário Pinto de Andrade, sociólogo angolano e principal organizador de antologias da poesia dos Países Africanos de Expressão Portuguesa durante o período colonial, “a vocação própria do intelectual é de situar os problemas essenciais que orientam os destinos do público do seu tempo. Os acontecimentos do século em que vivemos são de tal modo rápidos e apaixonantes que a consciência de cada intelectual se encontra dia a dia engajada em definir uma posição. Acontecimentos que se colocam no plano humano, social ou político – três aspectos da cultura. Daí o sentimento de responsabilidade actuante de todos nós que manejamos uma pena” .

Agostinho Neto, primeiro Presidente da República de Angola, numa palestra proferida em 18 de Novembro de 1959, na Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, tece as seguintes considerações:

“É mais triste que espantoso que uma grande parte de nós, os chamados assimilados, não sabe falar ou entender qualquer das nossas línguas! E isto é tanto mais dramático quanto é certo que pais há que proíbem os filhos de falar a língua dos seus avós. É claro, quem conhece o ambiente social em que estes fenómenos se produzem e vê no dia a dia o desenvolvimento impiedoso do processo de “coisificação” não se admirará de tanta falta de coragem. Este desconhecimento das línguas que impede a aproximação do intelectual junto do povo cava um fosso bem profundo entre os grupos chamados assimilados e indígena”. E confessa que “a maior parte dos poetas tem sido capaz de manter um contacto mínimo com as populações do seu meio e identificar-se, traduzir a vida desses homens nos seus poemas. (...) A poesia que neste momento podemos conhecer é moldada nos mesmos quadros estéticos da poesia portuguesa, acompanhando esta na sua evolução e sendo quase sempre poesia de compromisso. O poema angolano quase sempre toma uma posição perante a realidade social. Vemo-lo revoltado, ansioso, rejubilante por contribuir para a construção de uma vida harmoniosa entre os homens”. Sobre as questões estéticas, é peremptório ao afirmar que “os poetas formalistas são raros entre nós” , uma corrente (escola) que só conheceria o seu apogeu no fim do ano de 1999.

Em contexto colonial, e a respeito da política de assimilação, Mário Pinto de Andrade, sociólogo angolano que muito dedicou os seus estudos a essas problemáticas, assume que a “assimilação traduz-se sempre na prática por uma destruturação social dos quadros negro-africanos e pela criação em número reduzido da elite assimilada. No caso português, a assimilação apresenta-se como uma receita (a única) que permite fazer sair o indígena, o negro-africano, “das trevas da sua ignorância” para entrar no “santuário do saber”. Uma forma da passagem do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem de Hegel”. E continua, numa citação imprescindível: “O problema hoje é de saber como vai reagir o homem assimilado nessa situação artificial, parasitária de desenraizado. Como se vai afirmar? Fugindo do convívio com o indígena? Perdendo-se ao contacto com “as luzes brilhantes da civilização”? Aceitando e aprofundando a sua pseudo-condição de “mestiço cultural”?”. Não deixou de responder às inquietações históricas de então: “Uma tarefa se impõe, a meu ver, no momento histórico que atravessamos, para responder justamente a essas interrogações, que é a de retomar, esquadrinhar no nosso passado as correntes de afirmação, da tomada de consciência, através de atitudes individuais e dos movimentos culturais que se foram desenvolvendo, diante do problema da cultura negro-africana e da assimilação” .

O sociólogo dá-nos ainda conta das correntes de formação duma consciência “que as velhas gerações disseram nativa, a partir de nomes como os de Cordeiro da Matta, Tadeu Bastos, Silvério Ferreira, Paixão Franco, Assis Júnior (para Angola), os irmãos Albasini e Estácio Dias (para Moçambique). Curioso que nestes dois países o jornalismo tenha fornecido ocasião a uma plêiade de homens, de se fazerem eco das reivindicações das massas populares da época, de serem intérpretes duma consciência cultural em vias de renovação e de lançarem as bases duma nova personalidade angolana ou moçambicana. O Angolense, O Direito, A Verdade, O Farol do Povo, O Brado Africano – marcos do nosso passado cultural. Não foi por acaso que a nova geração angolana do pós-guerra, inspirando-se na leitura dos jornais locais do início do século, lançou em Luanda, pelos anos 48, um movimento cultural sob o nome de “Vamos Descobrir Angola”” .

“Vamos Descobrir Angola” é o mote político-cultural que é lançado em 1948 pelos “rapazes, negros, brancos e mestiços que se tornavam homens”, conta Carlos Ervedosa . Mário de Andrade, no texto que temos vindo a tirar extractos, escreve que o movimento “incitava os jovens a descobrir Angola em todos os seus aspectos”.

O capital literário desse período é caracterizado pelo sociólogo pelas seguintes cambiantes estéticas, que passamos a enumerar: a) “A riqueza e disponibilidade do vocabulário das línguas negro-africanas serviu ao florescimento duma literatura oral: mitos e lendas, contos, provérbios, enigmas, poemas” (para Angola, Mário de Andrade fala das obras de Castro Soromenho, Óscar Ribas); b) Sendo de expressão inglesa, francesa ou portuguesa, os novos poetas negro-africanos orientam-se no sentido duma pesquisa literária “autenticamente negra” e duma reivindicação “do orgulho escandaloso da qualidade de ser negro”; c) “Todos, com maior ou menor felicidade, se alimentam dum só tema: a noite de opressão colonial. Donde o engajamento político, revolucionário desta poesia que fere a sensibilidade de tanto esteta ocidental...” .

Em termos de publicações, interessa referir que, em 1951, é publicado o boletim literário angolano Mensagem, sob a responsabilidade do departamento cultural da ANANGOLA e, em Coimbra, é publicado um boletim similar, denominado Meridiano. São páginas copiografadas onde “uma grande parte da nova geração literária angolana vai prosseguir a sua caminhada depois dos primeiros passos dados em O Estudante e Padrão, jornais do Liceu de Luanda e do Lubango” , em conclusões de Carlos Ervedosa. O ensaísta vai mais longe na identificação das influências: “Grande parte deles fortemente impressionados correntes neo-realistas da literatura, do cinema e da pintura, triunfantes no pós-guerra, e mais tarde não só pela descoberta da negritude que desde 1935 vinha sendo propugnada por Senghor e Césaire, mas também pelo exemplo dos escritores negros norte-americanos, como Richard Wright, Contee Cullen e Langston Hughes, e do Cubano Nicolas Guillén” . Só em Outubro de 1952, sai novamente a revista Mensagem, n.ºs 2-4.

A revista literária Mensagem foi um dos mais emblemáticos projectos da Associação dos Naturais de Angola (ANANGOLA), uma organização saída da cisão no seio da Liga Nacional Africana. Viriato da Cruz e Mário Alcântara Monteiro (1952-1953), por esta altura, dirigiam o departamento cultural e lançaram a corrente cultural “Novos Intelectuais de Angola”, nacionalistas que mais tarde abandonam a ANANGOLA por não concordarem com as suas estratégias políticas .

A Liga Nacional Africana (LNA) surgiu de um plano gizado por Gervásio Ferreira Viana e o seu mentor pretendia “reunir os africanos do Cabo ao Cairo” . A data de 29 de Julho de 1930 corresponde ao dia da legalização da Liga, publicada no Boletim Oficial, II Série. No quadro de fundadores da LNA, devemos incluir os nomes de José Cristiano Pinto de Andrade, Manuel Inácio Torres Vieira e Sebastião José da Costa.

Na década de 50, um grupo de estudantes e intelectuais oriundos das colónias portuguesas fundou um Centro de Estudos Africanos (CEA) (1950-1954). São seus fundadores Agostinho Neto, Francisco-José Tenreiro, Alda do Espírito Santo, Noémia de Sousa, Amílcar Cabral e Mário de Andrade. Para citar Mário de Andrade, os objectivos do Centro de Estudos Africanos eram “racionalizar os sentimentos de se pertencer a um mundo de opressão e despertar a consciência nacional através de uma análise dos fundamentos culturais do continente” .

Havia também reuniões informais entre diversos intelectuais africanos “fora do quadro da Casa dos Estudantes do Império, no início da década de 50, de Outubro de 1951 a fins de 1954 – até se fixarem nos salões literários da Tia Andreza, Dília Espírito Santo, no 37 da Rua Actor Vale, em Lisboa. Era um espaço de intercâmbio de ideias, de discussão, de conversa, de papo, de apresentação daquilo que cada um sabia, palestras, poemas, estudos, e que «permitiu a aproximação de gerações e a transmissão de um caldo de cultura em vias de se perder»”. Edmundo Rocha, que venho citando, mais adianta no seu estudo que “este processo de redescoberta do eu, de regresso às fontes, de reafricanização, que alguns apelidaram «negritude», era a continuação de uma busca idêntica, no princípio do século XX, realizada também por intelectuais africanos, em Lisboa, a que se chamou «nativismo»” .

Portanto, outra organização que teve uma grande influência nos processos de criação dos ambientes literários foi a Casa dos Estudantes do Império (CEI), criada em 1944 dentro do espírito do regime.

Para o médico ensaísta, “foram várias as gerações que imprimiram um cunho histórico à Casa dos Estudantes do Império (CEI), um oásis de democracia e de liberdade numa sociedade obscurantista e repressiva” . No seu ensaio, que vem servindo de documento fundamental da minha pesquisa, Edmundo Rocha fala de duas gerações: “a geração dos «mais velhos», que chegou à metrópole nos anos de 48-50, compreendeu nomes prestigiosos como Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Mário de Andrade, Francisco José Tenreiro, Lúcio Lara, Marcelino dos Santos.” , e a geração dos mais novos, que, a partir de 1954, surge na CEI, “uma nova geração de estudantes africanos, angolanos na sua maioria, a nova vaga, que iria imprimir um espetacular dinamismo às actividades sócio-culturais e um carácter vincadamente nacionalista e progressista à acção de mobilização política, recusando a militância nos partidos e movimentos da Oposição portuguesa” . Mais concretamente sobre o impulso que prestou em relação aos projectos culturais, interessa registar que, impulsionados por Carlos Ervedosa, Fernando Costa Andrade, António Tomás Medeiros e Fernando Mourão, levaram a cabo “a publicação de obras de escritores e de poetas originários das colónias portuguesas como Agostinho Neto, Alda Lara, Corsino Fortes, Ernesto Lara Filho, Manuela Margarido, Pepetela, Gabriel Mariano, Noémia de Sousa, Alda Espírito Santo e outros, obras clássicas de Mário António, Luandino Vieira, José Craveirinha, Alexandre Dáskalos e Ovídio Martins (...), obras que representam um repositório das literaturas africanas de expressão portuguesa, de grande importância histórica e constituíram mensagens determinantes para a tomada de consciência nacionalista da juventude africana em Portugal e nas colónias” .

Em 1957, surge no panorama literário a revista Cultura, projecto editorial que como considerou António Jacinto, poeta e político, no texto intitulado Átrio, surge no momento que fecharam as portas da Anangola, um projecto editorial que permitiu o “desenvolvimento futuro” do nacionalismo. António Jacinto destaca como grande artífice desse processo de abertura da revista o advogado Eugénio Ferreira, que chega à presidência da Cultura, e na figura de editor inclui na sua publicação vários textos dos jovens António Cardoso, Henrique Abranches, Henrique Guerra e José Luandino Vieira.

Em termos de publicação de livros, é de realçar que, em 1949, é publicado o romance Terra Morta de Castro Soromenho. Em 1953, os escritores Mário Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro compilam a primeira Antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa e são incluídos três poetas angolanos. Em 1956, Mário António publica o volume intitulado Poesia; graças a ele, o jornal O Brado Africano (1952-53) faz sair o primeiro artigo sobre o político e poeta Agostinho Neto. Um outro grande boom editorial acontece nos anos de 1968 com Tempo de Munhungo de Arnaldo Santos, de 1969 com As Idades de Pedra de Cândido da Velha e de 1971 com Vinte Canções para Ximinha de João Maria Vilanova e Bom Dia de João Abel, os três últimos de poemas.

Em termos editoriais, pode dizer-se que 1968-74 é um período cuja dinâmica cultural e política, com a distribuição de panfletos nos grandes centros urbanos, anunciava a pré-independência.

Em 1970, a 4.ª Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos concedeu a Agostinho Neto o Prémio Lótus em reconhecimento do grande lugar ocupado pela sua poesia na literatura mundial, especificamente no que se entendeu designar de bloco de esquerda.

Poetas que mais se destacaram neste período: Viriato da Cruz, Agostinho Neto, António Jacinto, António Cardoso, Costa Andrade (Ndunduma), Arnaldo Santos, Henrique Guerra, Manuel Lima, Henrique Abranches, Aires de Almeida Santos, Alda Lara, Mário António, João Maria Vilanova, João Abel, Alexandre Dáskalos e tantos outros.


1974/1980

Período das exaltações patrióticas, de anulação do “outro”, de cultura panfletária perante as realidades sociais, de valorização das línguas nacionais e linguagens populares dominadas pela cultura dos musseques de Luanda.

A estética desse período é de grande exaltação patriótica. Inocência Mata, professora de literatura africanas, traça com pormenor os contornos desse período, que passo a citar:

“Amadurecida que estava a tradição literária nacionalista, através da construção da (utopia da) nação, a escrita, confrontada com o presente em desmoronamento no sentido da Pasárgada – destaca-se, doravante numa (re)escrita questionante da História. Uma (re)escrita que releva de uma inquirição sobre (o percurso de) um projecto nacional e sobre o perfil da pátria angolana, depois de um período bastante conturbado: o colonial e o imediatamente pós-colonial – e isso através:

· do diálogo dialéctico entre consciência individual e a história.

· da recusa dos constrangimentos da História que se impunham na fase de construção da ideia da nação.

· da desconstrução crítica dos modelos literários de forte radicação político-ideológica e intenção pragmática.

· da elaboração do sentido da identidade pátria (mais do que identidade nacional).

Vive-se, pois, um período e um processo de canibalização dos signos e símbolos literários construtores de um passado histórico de contaminação épica contrariando o que então se passou mesmo depois da independência, nos primeiros anos, em que a palavra literária continuou a erigir-se como veículo da revolução: doravante, ela funcionará como escrita regeneradora e catártica em relação à construção de uma História épica” .

Para Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco, professora de literatura africana, nesse período, “a poesia se torna «cantalutista». A independência, em 1975, gera a euforia que dura mais uns dois ou três anos. A poesia, então, celebra a certeza da liberdade e busca a recuperação da nacionalidade, procurando reconstruir a pátria dilacerada. Há um projecto poético de resgate da língua literária, aproveitada em suas virtudes intrínsecas e universais, mas há ainda referências circunstanciais e o comprometimento ético com as marcas linguísticas locais, as quais caracterizam a poesia dos anos 50 e 60” .

Durante esse longo período de anulação institucional das diversas correntes literárias contrárias ao figurino ideológico, próprios dos regimes de partido único, Carmen Silva, analista e jornalista que fez parte da revista Angolê - Artes e Letras, publicada em Lisboa, garante que “não se pode destacar uma publicação que tenha tido o papel de divulgação de outras escolas literárias, de divulgação de outras visões mais plurais sobre a vida e a sociedade, foi um longo período de deserto espiritual”.

Um grande encontro no Norte de Portugal, concretamente na cidade do Porto, o 1.º Simpósio Internacional sobre Literatura Angolana, realizado em 1989 e que teve como mentor e organizador Adriano Botelho de Vasconcelos, foi um dos raros e grandes eventos que aglutinou, pela primeira vez, mais de duas centenas de ensaístas das diversas partes do mundo que tiveram, até então, um papel importante de promoção da literatura angolana, mas ainda sem uma visão global das criações e de todos os “actores” angolanos, devido aos factores de comunicação. “Foi um grande evento marcado pelo pluralismo de ideias, de troca de informação bibliográfica, que permitiu que os ensaístas tivessem uma ideia mais abrangente dos escritores e suas propostas. Estiveram presentes mais de vinte cinco escritores, foi um sucesso”, contou o organizador.

Com o mesmo propósito de partilha e de divulgação de ideias, nas makas à 4.ª feira, a União dos Escritores Angolanos, de forma tímida, dá início ao pluralismo de ideias através da organização de debates abertos e sem constrangimentos visíveis, uma tradição que se mantém até aos dias de hoje.

Surge também, “com relativo valor estético” – a apreciação é de Pires Laranjeira – o movimento “brigadista” (Brigada Jovem de Literatura). Estamos no ano de 1981 e, para profusão das suas ideias, publica-se a revista Aspiração, mas o espectro “administrativo” da poesia fez com que se tenham desse período poucas certezas ou marcas sobre a sua influência no panorama literário, a não ser o que tem que ver com os processos restritos de convivência e afectos entre confrades que comungavam os mesmos interesses.

Pires Laranjeira, sobre esse período, diz o seguinte: “Numa primeira fase, ainda no rescaldo ufanista e apologético, a Brigada praticou um discurso de nítido pendor militante, em que escasseavam os talentos. Os próprios textos proclamativos e programáticos não deixavam dúvidas quanto ao alinhamento pelas teses da literatura de propaganda, exaltação e expressão emocional” . Mais acrescenta que “o peso da tradição literária angolana dos anos 50 (do Neo-realismo e da Negritude) continuou a exercer a sua força e fascínio sobre o novo discurso herdado directamente do primeiro espírito da Brigada Jovem”. Para o professor de literaturas africanas, só em 1985 “começa a ganhar expressão o labor pós-modernista que vinha fermentando nos meios da nova «geração» (...). Passada a época em que a política se imiscuía determinantemente no texto, essa novíssima geração entrou a trilhar vias entretanto abertas pelas principais figuras da geração dos anos 70, continuando com o seu labor nos anos mais recentes, numa linha de alguma contenção, em que não será descabido anotar a lição de Jofre Rocha e Jorge Macedo, para os cultores da poética do enraizamento, e de David Mestre e Ruy Duarte de Carvalho, para os simpatizantes da simbolização utopicamente universalista” .

Poetas que mais se destacam no primeiro quinquénio do pós-independência: Jofre Rocha, Samuel de Sousa, Jorge Macedo, Ruy Duarte de Carvalho, Adriano Botelho de Vasconcelos, Costa Andrade, Manuel Rui, Arlindo Barbeitos, António Cardoso, David Mestre, João Melo, Garcia Bires.


1980/2004

Geração de novas inventividades poéticas, liberdades linguísticas, renovações temáticas, dos estados de alma e ontológicos.

Carmen Lúcia Tindó Secco, mestre em Letras, sobre a fase de maiores influências cosmopolitas e de maior diversidade temática, cogita o seguinte: “A geração da poesia dos anos 80 (...), e também dos anos 90, tem como traço constante a temática da desilusão e da angústia diante da situação de Angola, que, até ao momento presente, não resolveu a questão da fome, da miséria, das guerras internas – as dúvidas em relação ao futuro fecham, actualmente, as possibilidades entreabertas pelas utopias revolucionárias dos anos 60 e início dos 70. A poesia surgida da década de 80 não vai, na maioria das vezes, se ater explicitamente as questões sociais” .

Inocência Mata, que no pretérito ano fez o seu doutoramento em literaturas africanas, no ensaio intitulado “Pepetela e as (novas) margens da nação angolana”, considera que uma das marcas “mais intrigantes, diria até mesmo emblemáticas, das actuais literaturas africanas de língua portuguesa, e da angolana particularmente, é o larvar trabalho de desconstrução (temática, discursiva e ideológica) e simultânea reconstituição do discurso sobre o corpo da nação, a partir de identidades da margem e consequente desestabilização do local da cultura (erigido como) nacional pelo discurso (literário) anti-colonial”. Mas a ensaísta vai mais longe na leitura que faz do virar de mais um ciclo de tendências: “A ideia de nação não esteve, portanto, então, intrisicamente ligada à de Cultura, como substância aglutinadora e congregadora, mas antes como vivência (saber-sentir) consolidada sob a condição colonial. E hoje não me parece arbitrário dizer que o processo de libertação nacional, de que a literatura foi subsidiária, não evoluiu para além dos termos da percepção do binómio Estado-Nação, para incluir também o termo em que perpassa o individual, o da cidadania. Ao fazê-lo, uma tácita apologia da diversidade e progressiva integração dessa diversidade num todo plural, estar-se-ia a propor no exercício quotidiano da pessoa individual (o cidadão) e colectiva (o Estado). Doravante, assim, em situação pós-colonial, o indivíduo vai-se definindo por uma consciência crítica, com intervenção activa na construção de um colectivo em que participa livremente na base de uma convenção, de um contrato e não numa base orgânica – ideológica, étnica, rácica ou linguística” .

Poetas que mais se destacaram: Jorge Macedo, Adriano Botelho de Vasconcelos, João Melo, João Maimona, José Luís Mendonça, J. A. S. Lopito Feijoó K., António Pompílio, António Gonçalves, João Tala, Fernando Kafukeno, Amélia da Lomba, Abreu Paxe, Ruy Duarte de Carvalho, Carlos Ferreira, Paula Tavares, Ana Santana, Conceição Cristóvão, Sapiruka.


Pesquisa de:
Seomara Santos
(UEA-Digital)



Mata, Inocência, Literatura Angolana: Silêncios e Falas de uma Voz Inquieta, Além Mar
 
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