|
Nota
introdutória: Este texto é uma
recolha e sistematização de dados
apresentados por diversos autores sobre a poesia
angolana, não se pretendendo a originalidade
ensaística. Portanto, sempre que se apresentar
relevante, citarei, ainda que de forma longa,
os autores em cujas obras me baseei para esta
síntese.
1945/1974
Este
é o período do “nascimento
de uma nova consciência ligada à
terra”, como tão bem identificou
Mário Pinto de Andrade, mais dizendo
que os poetas procuraram “um equilíbrio
de linguagem”, enriqueceram “a língua
da dominação”, exprimiram
“um novo valor ao canto popular”
e veicularam “a sua mensagem com um conteúdo
social”.
Para
Mário Pinto de Andrade, sociólogo
angolano e principal organizador de antologias
da poesia dos Países Africanos de Expressão
Portuguesa durante o período colonial,
“a vocação própria
do intelectual é de situar os problemas
essenciais que orientam os destinos do público
do seu tempo. Os acontecimentos do século
em que vivemos são de tal modo rápidos
e apaixonantes que a consciência de cada
intelectual se encontra dia a dia engajada em
definir uma posição. Acontecimentos
que se colocam no plano humano, social ou político
– três aspectos da cultura. Daí
o sentimento de responsabilidade actuante de
todos nós que manejamos uma pena”
.
Agostinho
Neto, primeiro Presidente da República
de Angola, numa palestra proferida em 18 de
Novembro de 1959, na Casa dos Estudantes do
Império, em Lisboa, tece as seguintes
considerações:
“É
mais triste que espantoso que uma grande parte
de nós, os chamados assimilados, não
sabe falar ou entender qualquer das nossas línguas!
E isto é tanto mais dramático
quanto é certo que pais há que
proíbem os filhos de falar a língua
dos seus avós. É claro, quem conhece
o ambiente social em que estes fenómenos
se produzem e vê no dia a dia o desenvolvimento
impiedoso do processo de “coisificação”
não se admirará de tanta falta
de coragem. Este desconhecimento das línguas
que impede a aproximação do intelectual
junto do povo cava um fosso bem profundo entre
os grupos chamados assimilados e indígena”.
E confessa que “a maior parte dos poetas
tem sido capaz de manter um contacto mínimo
com as populações do seu meio
e identificar-se, traduzir a vida desses homens
nos seus poemas. (...) A poesia que neste momento
podemos conhecer é moldada nos mesmos
quadros estéticos da poesia portuguesa,
acompanhando esta na sua evolução
e sendo quase sempre poesia de compromisso.
O poema angolano quase sempre toma uma posição
perante a realidade social. Vemo-lo revoltado,
ansioso, rejubilante por contribuir para a construção
de uma vida harmoniosa entre os homens”.
Sobre as questões estéticas, é
peremptório ao afirmar que “os
poetas formalistas são raros entre nós”
, uma corrente (escola) que só conheceria
o seu apogeu no fim do ano de 1999.
Em
contexto colonial, e a respeito da política
de assimilação, Mário Pinto
de Andrade, sociólogo angolano que muito
dedicou os seus estudos a essas problemáticas,
assume que a “assimilação
traduz-se sempre na prática por uma destruturação
social dos quadros negro-africanos e pela criação
em número reduzido da elite assimilada.
No caso português, a assimilação
apresenta-se como uma receita (a única)
que permite fazer sair o indígena, o
negro-africano, “das trevas da sua ignorância”
para entrar no “santuário do saber”.
Uma forma da passagem do não-ser ao ser
cultural, para empregar a linguagem de Hegel”.
E continua, numa citação imprescindível:
“O problema hoje é de saber como
vai reagir o homem assimilado nessa situação
artificial, parasitária de desenraizado.
Como se vai afirmar? Fugindo do convívio
com o indígena? Perdendo-se ao contacto
com “as luzes brilhantes da civilização”?
Aceitando e aprofundando a sua pseudo-condição
de “mestiço cultural”?”.
Não deixou de responder às inquietações
históricas de então: “Uma
tarefa se impõe, a meu ver, no momento
histórico que atravessamos, para responder
justamente a essas interrogações,
que é a de retomar, esquadrinhar no nosso
passado as correntes de afirmação,
da tomada de consciência, através
de atitudes individuais e dos movimentos culturais
que se foram desenvolvendo, diante do problema
da cultura negro-africana e da assimilação”
.
O
sociólogo dá-nos ainda conta das
correntes de formação duma consciência
“que as velhas gerações
disseram nativa, a partir de nomes como os de
Cordeiro da Matta, Tadeu Bastos, Silvério
Ferreira, Paixão Franco, Assis Júnior
(para Angola), os irmãos Albasini e Estácio
Dias (para Moçambique). Curioso que nestes
dois países o jornalismo tenha fornecido
ocasião a uma plêiade de homens,
de se fazerem eco das reivindicações
das massas populares da época, de serem
intérpretes duma consciência cultural
em vias de renovação e de lançarem
as bases duma nova personalidade angolana ou
moçambicana. O Angolense, O Direito,
A Verdade, O Farol do Povo, O Brado Africano
– marcos do nosso passado cultural. Não
foi por acaso que a nova geração
angolana do pós-guerra, inspirando-se
na leitura dos jornais locais do início
do século, lançou em Luanda, pelos
anos 48, um movimento cultural sob o nome de
“Vamos Descobrir Angola””
.
“Vamos
Descobrir Angola” é o mote político-cultural
que é lançado em 1948 pelos “rapazes,
negros, brancos e mestiços que se tornavam
homens”, conta Carlos Ervedosa . Mário
de Andrade, no texto que temos vindo a tirar
extractos, escreve que o movimento “incitava
os jovens a descobrir Angola em todos os seus
aspectos”.
O capital literário desse período
é caracterizado pelo sociólogo
pelas seguintes cambiantes estéticas,
que passamos a enumerar: a) “A riqueza
e disponibilidade do vocabulário das
línguas negro-africanas serviu ao florescimento
duma literatura oral: mitos e lendas, contos,
provérbios, enigmas, poemas” (para
Angola, Mário de Andrade fala das obras
de Castro Soromenho, Óscar Ribas); b)
Sendo de expressão inglesa, francesa
ou portuguesa, os novos poetas negro-africanos
orientam-se no sentido duma pesquisa literária
“autenticamente negra” e duma reivindicação
“do orgulho escandaloso da qualidade de
ser negro”; c) “Todos, com maior
ou menor felicidade, se alimentam dum só
tema: a noite de opressão colonial. Donde
o engajamento político, revolucionário
desta poesia que fere a sensibilidade de tanto
esteta ocidental...” .
Em
termos de publicações, interessa
referir que, em 1951, é publicado o boletim
literário angolano Mensagem, sob a responsabilidade
do departamento cultural da ANANGOLA e, em Coimbra,
é publicado um boletim similar, denominado
Meridiano. São páginas copiografadas
onde “uma grande parte da nova geração
literária angolana vai prosseguir a sua
caminhada depois dos primeiros passos dados
em O Estudante e Padrão, jornais do Liceu
de Luanda e do Lubango” , em conclusões
de Carlos Ervedosa. O ensaísta vai mais
longe na identificação das influências:
“Grande parte deles fortemente impressionados
correntes neo-realistas da literatura, do cinema
e da pintura, triunfantes no pós-guerra,
e mais tarde não só pela descoberta
da negritude que desde 1935 vinha sendo propugnada
por Senghor e Césaire, mas também
pelo exemplo dos escritores negros norte-americanos,
como Richard Wright, Contee Cullen e Langston
Hughes, e do Cubano Nicolas Guillén”
. Só em Outubro de 1952, sai novamente
a revista Mensagem, n.ºs 2-4.
A
revista literária Mensagem foi um dos
mais emblemáticos projectos da Associação
dos Naturais de Angola (ANANGOLA), uma organização
saída da cisão no seio da Liga
Nacional Africana. Viriato da Cruz e Mário
Alcântara Monteiro (1952-1953), por esta
altura, dirigiam o departamento cultural e lançaram
a corrente cultural “Novos Intelectuais
de Angola”, nacionalistas que mais tarde
abandonam a ANANGOLA por não concordarem
com as suas estratégias políticas
.
A
Liga Nacional Africana (LNA) surgiu de um plano
gizado por Gervásio Ferreira Viana e
o seu mentor pretendia “reunir os africanos
do Cabo ao Cairo” . A data de 29 de Julho
de 1930 corresponde ao dia da legalização
da Liga, publicada no Boletim Oficial, II Série.
No quadro de fundadores da LNA, devemos incluir
os nomes de José Cristiano Pinto de Andrade,
Manuel Inácio Torres Vieira e Sebastião
José da Costa.
Na
década de 50, um grupo de estudantes
e intelectuais oriundos das colónias
portuguesas fundou um Centro de Estudos Africanos
(CEA) (1950-1954). São seus fundadores
Agostinho Neto, Francisco-José Tenreiro,
Alda do Espírito Santo, Noémia
de Sousa, Amílcar Cabral e Mário
de Andrade. Para citar Mário de Andrade,
os objectivos do Centro de Estudos Africanos
eram “racionalizar os sentimentos de se
pertencer a um mundo de opressão e despertar
a consciência nacional através
de uma análise dos fundamentos culturais
do continente” .
Havia
também reuniões informais entre
diversos intelectuais africanos “fora
do quadro da Casa dos Estudantes do Império,
no início da década de 50, de
Outubro de 1951 a fins de 1954 – até
se fixarem nos salões literários
da Tia Andreza, Dília Espírito
Santo, no 37 da Rua Actor Vale, em Lisboa. Era
um espaço de intercâmbio de ideias,
de discussão, de conversa, de papo, de
apresentação daquilo que cada
um sabia, palestras, poemas, estudos, e que
«permitiu a aproximação
de gerações e a transmissão
de um caldo de cultura em vias de se perder»”.
Edmundo Rocha, que venho citando, mais adianta
no seu estudo que “este processo de redescoberta
do eu, de regresso às fontes, de reafricanização,
que alguns apelidaram «negritude»,
era a continuação de uma busca
idêntica, no princípio do século
XX, realizada também por intelectuais
africanos, em Lisboa, a que se chamou «nativismo»”
.
Portanto,
outra organização que teve uma
grande influência nos processos de criação
dos ambientes literários foi a Casa dos
Estudantes do Império (CEI), criada em
1944 dentro do espírito do regime.
Para
o médico ensaísta, “foram
várias as gerações que
imprimiram um cunho histórico à
Casa dos Estudantes do Império (CEI),
um oásis de democracia e de liberdade
numa sociedade obscurantista e repressiva”
. No seu ensaio, que vem servindo de documento
fundamental da minha pesquisa, Edmundo Rocha
fala de duas gerações: “a
geração dos «mais velhos»,
que chegou à metrópole nos anos
de 48-50, compreendeu nomes prestigiosos como
Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Mário
de Andrade, Francisco José Tenreiro,
Lúcio Lara, Marcelino dos Santos.”
, e a geração dos mais novos,
que, a partir de 1954, surge na CEI, “uma
nova geração de estudantes africanos,
angolanos na sua maioria, a nova vaga, que iria
imprimir um espetacular dinamismo às
actividades sócio-culturais e um carácter
vincadamente nacionalista e progressista à
acção de mobilização
política, recusando a militância
nos partidos e movimentos da Oposição
portuguesa” . Mais concretamente sobre
o impulso que prestou em relação
aos projectos culturais, interessa registar
que, impulsionados por Carlos Ervedosa, Fernando
Costa Andrade, António Tomás Medeiros
e Fernando Mourão, levaram a cabo “a
publicação de obras de escritores
e de poetas originários das colónias
portuguesas como Agostinho Neto, Alda Lara,
Corsino Fortes, Ernesto Lara Filho, Manuela
Margarido, Pepetela, Gabriel Mariano, Noémia
de Sousa, Alda Espírito Santo e outros,
obras clássicas de Mário António,
Luandino Vieira, José Craveirinha, Alexandre
Dáskalos e Ovídio Martins (...),
obras que representam um repositório
das literaturas africanas de expressão
portuguesa, de grande importância histórica
e constituíram mensagens determinantes
para a tomada de consciência nacionalista
da juventude africana em Portugal e nas colónias”
.
Em
1957, surge no panorama literário a revista
Cultura, projecto editorial que como considerou
António Jacinto, poeta e político,
no texto intitulado Átrio, surge no momento
que fecharam as portas da Anangola, um projecto
editorial que permitiu o “desenvolvimento
futuro” do nacionalismo. António
Jacinto destaca como grande artífice
desse processo de abertura da revista o advogado
Eugénio Ferreira, que chega à
presidência da Cultura, e na figura de
editor inclui na sua publicação
vários textos dos jovens António
Cardoso, Henrique Abranches, Henrique Guerra
e José Luandino Vieira.
Em
termos de publicação de livros,
é de realçar que, em 1949, é
publicado o romance Terra Morta de Castro Soromenho.
Em 1953, os escritores Mário Pinto de
Andrade e Francisco José Tenreiro compilam
a primeira Antologia de Poesia Negra de Expressão
Portuguesa e são incluídos três
poetas angolanos. Em 1956, Mário António
publica o volume intitulado Poesia; graças
a ele, o jornal O Brado Africano (1952-53) faz
sair o primeiro artigo sobre o político
e poeta Agostinho Neto. Um outro grande boom
editorial acontece nos anos de 1968 com Tempo
de Munhungo de Arnaldo Santos, de 1969 com As
Idades de Pedra de Cândido da Velha e
de 1971 com Vinte Canções para
Ximinha de João Maria Vilanova e Bom
Dia de João Abel, os três últimos
de poemas.
Em
termos editoriais, pode dizer-se que 1968-74
é um período cuja dinâmica
cultural e política, com a distribuição
de panfletos nos grandes centros urbanos, anunciava
a pré-independência.
Em
1970, a 4.ª Conferência dos Escritores
Afro-Asiáticos concedeu a Agostinho Neto
o Prémio Lótus em reconhecimento
do grande lugar ocupado pela sua poesia na literatura
mundial, especificamente no que se entendeu
designar de bloco de esquerda.
Poetas
que mais se destacaram neste período:
Viriato da Cruz, Agostinho Neto, António
Jacinto, António Cardoso, Costa Andrade
(Ndunduma), Arnaldo Santos, Henrique Guerra,
Manuel Lima, Henrique Abranches, Aires de Almeida
Santos, Alda Lara, Mário António,
João Maria Vilanova, João Abel,
Alexandre Dáskalos e tantos outros.
1974/1980
Período
das exaltações patrióticas,
de anulação do “outro”,
de cultura panfletária perante as realidades
sociais, de valorização das línguas
nacionais e linguagens populares dominadas pela
cultura dos musseques de Luanda.
A
estética desse período é
de grande exaltação patriótica.
Inocência Mata, professora de literatura
africanas, traça com pormenor os contornos
desse período, que passo a citar:
“Amadurecida
que estava a tradição literária
nacionalista, através da construção
da (utopia da) nação, a escrita,
confrontada com o presente em desmoronamento
no sentido da Pasárgada – destaca-se,
doravante numa (re)escrita questionante da História.
Uma (re)escrita que releva de uma inquirição
sobre (o percurso de) um projecto nacional e
sobre o perfil da pátria angolana, depois
de um período bastante conturbado: o
colonial e o imediatamente pós-colonial
– e isso através:
·
do diálogo dialéctico entre consciência
individual e a história.
·
da recusa dos constrangimentos da História
que se impunham na fase de construção
da ideia da nação.
· da desconstrução crítica
dos modelos literários de forte radicação
político-ideológica e intenção
pragmática.
·
da elaboração do sentido da identidade
pátria (mais do que identidade nacional).
Vive-se,
pois, um período e um processo de canibalização
dos signos e símbolos literários
construtores de um passado histórico
de contaminação épica contrariando
o que então se passou mesmo depois da
independência, nos primeiros anos, em
que a palavra literária continuou a erigir-se
como veículo da revolução:
doravante, ela funcionará como escrita
regeneradora e catártica em relação
à construção de uma História
épica” .
Para
Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco,
professora de literatura africana, nesse período,
“a poesia se torna «cantalutista».
A independência, em 1975, gera a euforia
que dura mais uns dois ou três anos. A
poesia, então, celebra a certeza da liberdade
e busca a recuperação da nacionalidade,
procurando reconstruir a pátria dilacerada.
Há um projecto poético de resgate
da língua literária, aproveitada
em suas virtudes intrínsecas e universais,
mas há ainda referências circunstanciais
e o comprometimento ético com as marcas
linguísticas locais, as quais caracterizam
a poesia dos anos 50 e 60” .
Durante
esse longo período de anulação
institucional das diversas correntes literárias
contrárias ao figurino ideológico,
próprios dos regimes de partido único,
Carmen Silva, analista e jornalista que fez
parte da revista Angolê - Artes e Letras,
publicada em Lisboa, garante que “não
se pode destacar uma publicação
que tenha tido o papel de divulgação
de outras escolas literárias, de divulgação
de outras visões mais plurais sobre a
vida e a sociedade, foi um longo período
de deserto espiritual”.
Um
grande encontro no Norte de Portugal, concretamente
na cidade do Porto, o 1.º Simpósio
Internacional sobre Literatura Angolana, realizado
em 1989 e que teve como mentor e organizador
Adriano Botelho de Vasconcelos, foi um dos raros
e grandes eventos que aglutinou, pela primeira
vez, mais de duas centenas de ensaístas
das diversas partes do mundo que tiveram, até
então, um papel importante de promoção
da literatura angolana, mas ainda sem uma visão
global das criações e de todos
os “actores” angolanos, devido aos
factores de comunicação. “Foi
um grande evento marcado pelo pluralismo de
ideias, de troca de informação
bibliográfica, que permitiu que os ensaístas
tivessem uma ideia mais abrangente dos escritores
e suas propostas. Estiveram presentes mais de
vinte cinco escritores, foi um sucesso”,
contou o organizador.
Com
o mesmo propósito de partilha e de divulgação
de ideias, nas makas à 4.ª feira,
a União dos Escritores Angolanos, de
forma tímida, dá início
ao pluralismo de ideias através da organização
de debates abertos e sem constrangimentos visíveis,
uma tradição que se mantém
até aos dias de hoje.
Surge
também, “com relativo valor estético”
– a apreciação é
de Pires Laranjeira – o movimento “brigadista”
(Brigada Jovem de Literatura). Estamos no ano
de 1981 e, para profusão das suas ideias,
publica-se a revista Aspiração,
mas o espectro “administrativo”
da poesia fez com que se tenham desse período
poucas certezas ou marcas sobre a sua influência
no panorama literário, a não ser
o que tem que ver com os processos restritos
de convivência e afectos entre confrades
que comungavam os mesmos interesses.
Pires
Laranjeira, sobre esse período, diz o
seguinte: “Numa primeira fase, ainda no
rescaldo ufanista e apologético, a Brigada
praticou um discurso de nítido pendor
militante, em que escasseavam os talentos. Os
próprios textos proclamativos e programáticos
não deixavam dúvidas quanto ao
alinhamento pelas teses da literatura de propaganda,
exaltação e expressão emocional”
. Mais acrescenta que “o peso da tradição
literária angolana dos anos 50 (do Neo-realismo
e da Negritude) continuou a exercer a sua força
e fascínio sobre o novo discurso herdado
directamente do primeiro espírito da
Brigada Jovem”. Para o professor de literaturas
africanas, só em 1985 “começa
a ganhar expressão o labor pós-modernista
que vinha fermentando nos meios da nova «geração»
(...). Passada a época em que a política
se imiscuía determinantemente no texto,
essa novíssima geração
entrou a trilhar vias entretanto abertas pelas
principais figuras da geração
dos anos 70, continuando com o seu labor nos
anos mais recentes, numa linha de alguma contenção,
em que não será descabido anotar
a lição de Jofre Rocha e Jorge
Macedo, para os cultores da poética do
enraizamento, e de David Mestre e Ruy Duarte
de Carvalho, para os simpatizantes da simbolização
utopicamente universalista” .
Poetas
que mais se destacam no primeiro quinquénio
do pós-independência: Jofre Rocha,
Samuel de Sousa, Jorge Macedo, Ruy Duarte de
Carvalho, Adriano Botelho de Vasconcelos, Costa
Andrade, Manuel Rui, Arlindo Barbeitos, António
Cardoso, David Mestre, João Melo, Garcia
Bires.
1980/2004
Geração
de novas inventividades poéticas, liberdades
linguísticas, renovações
temáticas, dos estados de alma e ontológicos.
Carmen
Lúcia Tindó Secco, mestre em Letras,
sobre a fase de maiores influências cosmopolitas
e de maior diversidade temática, cogita
o seguinte: “A geração da
poesia dos anos 80 (...), e também dos
anos 90, tem como traço constante a temática
da desilusão e da angústia diante
da situação de Angola, que, até
ao momento presente, não resolveu a questão
da fome, da miséria, das guerras internas
– as dúvidas em relação
ao futuro fecham, actualmente, as possibilidades
entreabertas pelas utopias revolucionárias
dos anos 60 e início dos 70. A poesia
surgida da década de 80 não vai,
na maioria das vezes, se ater explicitamente
as questões sociais” .
Inocência
Mata, que no pretérito ano fez o seu
doutoramento em literaturas africanas, no ensaio
intitulado “Pepetela e as (novas) margens
da nação angolana”, considera
que uma das marcas “mais intrigantes,
diria até mesmo emblemáticas,
das actuais literaturas africanas de língua
portuguesa, e da angolana particularmente, é
o larvar trabalho de desconstrução
(temática, discursiva e ideológica)
e simultânea reconstituição
do discurso sobre o corpo da nação,
a partir de identidades da margem e consequente
desestabilização do local da cultura
(erigido como) nacional pelo discurso (literário)
anti-colonial”. Mas a ensaísta
vai mais longe na leitura que faz do virar de
mais um ciclo de tendências: “A
ideia de nação não esteve,
portanto, então, intrisicamente ligada
à de Cultura, como substância aglutinadora
e congregadora, mas antes como vivência
(saber-sentir) consolidada sob a condição
colonial. E hoje não me parece arbitrário
dizer que o processo de libertação
nacional, de que a literatura foi subsidiária,
não evoluiu para além dos termos
da percepção do binómio
Estado-Nação, para incluir também
o termo em que perpassa o individual, o da cidadania.
Ao fazê-lo, uma tácita apologia
da diversidade e progressiva integração
dessa diversidade num todo plural, estar-se-ia
a propor no exercício quotidiano da pessoa
individual (o cidadão) e colectiva (o
Estado). Doravante, assim, em situação
pós-colonial, o indivíduo vai-se
definindo por uma consciência crítica,
com intervenção activa na construção
de um colectivo em que participa livremente
na base de uma convenção, de um
contrato e não numa base orgânica
– ideológica, étnica, rácica
ou linguística” .
Poetas
que mais se destacaram: Jorge Macedo, Adriano
Botelho de Vasconcelos, João Melo, João
Maimona, José Luís Mendonça,
J. A. S. Lopito Feijoó K., António
Pompílio, António Gonçalves,
João Tala, Fernando Kafukeno, Amélia
da Lomba, Abreu Paxe, Ruy Duarte de Carvalho,
Carlos Ferreira, Paula Tavares, Ana Santana,
Conceição Cristóvão,
Sapiruka.
Pesquisa de:
Seomara Santos
(UEA-Digital)
Mata, Inocência, Literatura
Angolana: Silêncios e Falas de uma Voz Inquieta,
Além Mar |